09/08/2016

DESABAFO: Pokemon GO - O novo bode expiatório.

Vi em alguns locais essa notícia (que, aliás, já foi desmentida pelo pai - infelizmente a criança morreu, mas ela não estava caçando pokemons):


Porque as pessoas estão alarmadas com o fato “Criança morre jogando pokemon”? 

O que me deixa profundamente preocupada é:
  1. O que duas crianças faziam andando de barco sem a supervisão de um adulto?
  2. Como duas crianças saem sozinha para nadar num lago e os pais permitem?
  3. Se os pais não sabiam, desde quando criança sai de casa sem avisar nem dar satisfação?
  4. Se a criança fugiu, cadê a segurança e cuidados da família para evitar que isso ocorra?

claro que acidentes acontecem, mas vamos combinar: quem foi que deixou o filho sair de casa? quem foi que deu o celular com acesso a internet móvel, câmera, e acesso ilimitado a APP store?)

E digo mais:

Criança não tem que usar celular nenhum sem supervisão. Aliás, não pode utilizar qualquer aparelho com acesso à internet sozinha.
Simplesmente porque, da mesma forma que uma criança não está apta a dirigir, ela não tem bagagem e discernimento suficientes para filtrar o que vê na web.
Celular hoje é algo muito além de ligação e SMS. Seu filho pode usar o navegador do celular para procurar QUALQUER coisa na internet! Qualquer coisa MESMO! Desde chats (conversando com estranhos!!!!! ai sim serão ludibriados e enganados!!! e pior !! o celular tem CÂMERA - adivinha só??? SEU FILHO PODE BATER FOTOS E ENVIAR PARA QUEM ELE QUISER!! Isso mesmo!!!! Inclusive da sua casa para um assaltante potencial, e ainda por cima contar para o elemento que está sozinho em casa!!!!!!!!ixi… vamos proibir os chats!!!!!), até sites de conteúdo adulto, filmes inapropriados para faixa etária, e mais milhares e milhares de outras coisas!!

A culpa não é do Pokemon. A culpa é da falta de cuidado com a tecnologia.

Celular/computador/tablet de criança tem que estar sob o rígido controle DOS PAIS. Existem mil formas, fornecidas pelos próprios aparelhos, de impedir que seu filho tenha acesso a qualquer aplicativo e conteúdo impróprio para a idade. Isso se chama CONTROLE PARENTAL. Pesquise, se informe, e liguem esses recursos. Ou você vai deixar seu filho ter a senha do Netflix e ver filmes violentos e com conteúdo sexual tendo apenas 6 anos?? Hmm, acho que não! Então porque você deixa ele baixar o aplicativo que bem entende?

Você tem um filho pequeno que quer jogar pokemon?
Você é contra? Não tem tempo para jogar junto? PROÍBA. Tire a senha das lojas de aplicativos ou ative o controle parental, para que ele não tenha acesso.
Ah, mas ele quer MUITO? Ótimo! Então baixe o jogo no SEU celular e empreste para seu filho jogar quando VOCÊ estiver em casa. Só em casa, e acabou. Não tem chororô.

Ele quer sair para caçar pokemons? Vá junto! Aproveite e estreite seus laços com o seu filho. 
Ensine-o como atravessar ruas, como andar sempre alerta; aproveite a oportunidade para educá-lo.

Culpar o Pokemon por isso é, no mínimo, transferência de culpa.  A culpa é da internet e ninguém quer mais viver num mundo sem internet - então se adapte a ela, e eduque e protege exaustivamente seus filhos. 

OBS: e os adultos que morrem jogando pokemon? Bem, adulto morre andando de carro, porque bebe demais; adulto morre caindo do precipício, para tirar a melhor selfie; vamos proibir carros, cerveja e celulares então?

08/08/2016

Toda luz que não podemos ver - Anthony Doerr



Sinopse: 
"Um romance sobre autopreservação e generosidade em meio às atrocidades de uma guerra que jamais deve ser esquecida.
Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu. 
Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia.
Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial.
Uma história arrebatadora contada de forma fascinante. Com incrível habilidade para combinar lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, o premiado autor Anthony Doerr constrói, em Toda luz que não Podemos Ver, um tocante romance sobre o que há além do mundo visível."

Minha opinião:
O livro, melhor livro de ficção de 2015 pelo prêmio Pulitzer, é uma obra-prima. Gosto desse tipo de livro: que te instiga e te leva a "pensar" e repensar.
Conceitos como o bom X mau são questionados, e mostram que pessoas boas podem trilhar caminhos não necessariamente do bem, mas necessário para sobreviver. Aliás, a sobrevivência é vivida em cada palavra do romance; a sobrevivência da menina cega, do destino do pai (eu demorei um pouco para me tocar do que havia de fato acontecido com ele). É um livro, afinal, sobre a 2ª guerra mundial, uma época manchada por horrores na história, e você se transporta para a época e sente um milésimo do horror que, talvez, muitos tenham sentido naquele momento.
Achei interessante que ele mostra a visão "dupla": uma menina fugindo, e um menino indo para a guerra; a menina que tem medo dos alemães, e o menino prodígio deles.
Werner, apesar de ingênuo, no fundo sabe as atrocidades que são cometidas, mas se leva pela maré.
Marie-Laure, cega, foi a parte que mais me surpreendeu. A menina é astuta e acho que a jóia da obra de Anthony reside em como ele narrou as cenas em primeira pessoa de um cego. Você não vê nada, mas imagina todos os sentidos que a personagem utilizada para contornar sua deficiência. Achei fantástico.
Valeu cada minuto de leitura.

O livro é, antes de tudo, cheio de ternura e resiliência.
E nos mostra que, após todo o horror, um novo dia se abrirá...

OBS: amei a referência a um objeto de valor imensurável, quiçá maior tesouro, que se perde e é buscado; objeto que interliga destinos, que une traços aparentemente aleatórios; e que, por fim, nos leva a questionar nossas próprias superstições, crendices e maldições - será bobeira?