07/07/2016

Canção

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos

sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram

meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar

e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava

desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim. 

(Cecília Meireles)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é bem-vinda, desde que respeite as normas básicas da boa educação! Obrigada pela visita :-)